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Henry Chinasky

Toalha da discórdia ( ótima reflexão)

28 posts neste tópico

Postado (editado)

 

Toalha da discórdia

 

“Se você tivesse uma chance? Uma oportunidade para ter tudo o que você sempre quis. Um momento. Você pegaria? Ou deixaria escapar?”

Os primeiros versos de “Lose Yourself”, música vencedora do Oscar em 2003, não só falam do início da trajetória do rapper Eminem, como também me servem de trampolim para o assunto que ouso mergulhar a seguir.

Desde as primeiras horas de domingo (4), pedras dos mais distintos tamanhos e pesos têm sido atiradas no tema “Valentina Shevchenko vs. Priscila Pedrita“. Os motivos são variados, mas todos óbvios: casamento da luta (teve luta?); interrupção tardia do árbitro (Mario Yamasaki mais judiado do que sanitário de churrascaria rodízio); córner não ter jogado a toalha; equipe e atleta terem aceitado a peleja.

Como muito já foi dito acerca dos dois primeiros pontos nos dias seguintes ao UFC Belém, vou me ater aos dois últimos objetos. E é chegada a hora de rever “Lose Yourself”.

Como a maioria sabe, Priscila foi escalada para fazer sua estreia no UFC contra Lauren Murphy, em dezembro do ano passado, mas problemas com o visto forçaram a atleta da PRVT a desistir do combate e deixar o UFC na mão. Assim, equipe e lutadora ficaram sem muito poder de barganha quando a organização jogou o nome de Valentina na mesa. Tiveram que entubar o que foi, provavelmente, a estreia mais aterrorizante com a qual um lutador já se deparou. Carne de pescoço. Encardida. Um passo rumo ao cemitério ou à improvável glória.

Mas se você tivesse uma chance? Uma oportunidade para ter tudo o que você sempre quis. Um momento. Você pegaria? Ou deixaria escapar?

Pois é.

Pedrita, que já venceu o soturno submundo das drogas e viu bater à porta a chance da sua vida, caiu pra dentro. Afinal, vai que recusa o confronto e é cortada do UFC sem nem mesmo lutar? Carlos Boi está aí para provar que isso é possível.

Então, acredito que não há muito para onde fugir aqui: Pedrita aceitou porque, além de ser valente, sabe que esse raio poderia não voltar a cair. Viu a chance e agarrou. Simples.

Jogar ou não jogar: eis a questão

Permitam-me uma acelerada viagem no tempo.

UFC 128. Março de 2011. Maurício Shogun vs. Jon Jones. O curitibano da Chute Boxe, o guardião do código de honra da casca-grossagem, o porradeiro da pesada que assombrou o PRIDE. Alguém diria que esse monstro desisitiria de uma luta por causa de pancada?

É bem verdade que Herb Dean interrompeu o passeio de Jones milésimos antes de Shogun dar os três tapinhas, mas ali, naquele momento, o mundo viu um dos maiores guerreiros do esporte suplicar, em silêncio, que não aguentava mais.

É bem verdade também que ouvi dizer, anos mais tarde, que Mauricio sofreu traumatismo craniano após aquela surra, mas isso é azo pra outro papo.

UFC-128-Jon-Jones-Mauricio-Shogun-690x50

Poderia falar de David Branch e Joanna Jedrzejczyk, que também “pediram altos” da brincadeira contra Luke Rockhold e Rose Namajunas, respectivamente (Joanna deu os tapinhas pouco antes da interrupção do árbitro, mas Branch sinalizou a desistência para que o terceiro homem pudesse encerrar o castigo). No entanto, o exemplo de Shogun é mais simbólico para o meu argumento.

É batido o axioma de que o córner conhece seu atleta como ninguém. Então, como alguém alheio a essa relação pode exigir que se jogue a toalha? Será que alguma alma no córner cogitou jogar a toalha na luta do irmão do Murilo Ninja?

Por favor, né…

Paige VanZant quebrou – vou repetir: QUEBROU – o braço na derrota para Jessica-Rose Clark, no mês passado, e contou isso ao córner no intervalo entre rounds. A resposta? “Ok”. Isso mesmo. Um simples “ok” do treinador, que cagou e se limitou a passar instruções para o assalto final.

Ora, por que não parou a luta, se a guria acabara de informar sobre a lesão? Dois motivos.

Primeiro: àquela altura ainda não se sabia que ela havia quebrado o braço – afinal, imagina-se que sofrer algo do gênero impossibilite que você movimente o membro, e Paige, que ganhou um grauzinho na faixa de casca-grossagem naquela noite, nem fazia expressão de dor. Segundo: o cara conhece a atleta que tem. Tanto que a jovem venceu o terceiro round, apesar do revés nas papeletas dos juízes.

Sei que nós, da imprensa, prezamos pela informação, e alguns têm a função de emitir opinião, mas é complicado demais intervir numa relação tão pessoal e única que é atleta + treinador.

Priscila-Pedrita-Gilliard-Parana-e151805

A galera das antigas, por exemplo, é veementemente contrária a jogar a toalha. Em off, quatro consgrados líderes de academia contaram a um camarada meu que jamais jogariam a toalha se fossem o Gilliard Paraná, treinador e córner da Priscila Pedrita. “Enquanto houver água no fundo do poço, há esperança”, foi a frase de um deles.

Por outro lado, Rafael dos Anjos e Cub Swanson se mostraram a favor da jogada de toalha imediatamente após o término do atropelo de Valentina. Os dois batem na tecla de que o MMA deveria aderir à concepção do boxe, em que é corriqueira a interrupção do duelo por parte do córner.

Complicado.

Obviamente, o treinador não quer o mal do seu atleta. Mas até que ponto a cega confiança na vitória vale o sacrifício da carcaça?

Certa vez, “Big” John McCarthy relembrou um causo, ocorrido nos primórdios do vale-tudo. Reza a lenda que, ao fim do UFC 2, o então árbitro caminhou até Rorion Gracie, o pai do Ultimate Fighting Championship, e foi enfático.

“Os caras do córner não param a luta, mesmo quando eu peço. Alguém vai sair daqui seriamente machucado, porque a maioria não sabe se defender como o seu irmão (Royce Gracie), e as regras não permitem que eu pare a luta.”

Foi então que, a partir do UFC 3, os árbitros conquistaram o poder de interromper o combate. E o resto virou história.

No caso da Pedrita, acredito cegamente que o Paraná a conhece muito bem, mas ela não havia sido testada a ponto de o mestre saber que a pupila tinha condições de levar o castigo que levou. Priscila não havia estado em situação semelhante numa luta, e duvido muito que alguém no treino passe o carro nela daquela forma – não que a Jessica Bate-Estaca não tenha condições, mas um treino não chega a esse grau de brutalidade.

Então, acho que só a partir de agora, o Gilliard pode ter a plena noção de quem é Priscila Pedrita: uma guerreira de um coração gigantesco. E essa é a diferença com Shogun, já consagrado e exposto a situações de extrema dificuldade. O córner sabia exatamente o que ele poderia dar ou não dentro do octógono e, por isso, tamanha surpresa quando ele deu os três tapinhas.

Evolução x tradição é um confronto que afeta diversos esportes, não só o MMA. Vemos o futebol capengando na tecnologia, por exemplo, em relação a árbitros de vídeo, chips na bola etc. Mas enquanto a polêmica se restringir à relação interpessoal, córner x atleta, eu prefiro julgar caso a caso.

Nem toda Pedrita é Shogun.

http://mmabrasil.com.br/toalha-da-discordia

Achei esse texto... o melhor e mais equilibrado que li até agora sobre um tema polêmico e que voltou a tona no último UFC. As linhas acima, reputo,, não buscam condenar, tampouco livrar quem quer que seja. Faz ponderações. Aponta uma direção mas deixa o caminho livre para o debate consciencioso. Acho que até caberia principal mas como já tem tópicos sobre a luta que levantou tal assunto e alguns abertos por mim, fiquei temeroso de estar sendo excessivo e redundante, ainda que este material tenha um viés diferente; ele trás uma análise mais geral sobre a quase sempre difícil decisão de desistir de uma luta devido ao desequilíbrio gritante;  ilustra um pouco do drama que navega entre o atleta e seu time quando a decisão é decretar o fim da batalha, jogando a toalha, ou admitindo-a através da   auto desistência . Não é fácil de fazer , tampouco o é opinar sobre, sem entender caso a caso... Por isso tudo, acho uma discussão muito valida e resolvi trazê-la, mais uma vez , após ler o texto acima.

Espero que gostem. Abraços.

 

 

Editado por Henry Chinasky

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Excelente tópico. Excelente mesmo. Já havia postado opiniao parecida naquele tópico da Pedrita. O treinador geralmente conhece seus pupilos, sabe quais precisam mais e quais precisam menos de empurrões para prosseguir. Por ex., uma vez o Rafael Cordeiro falou sobre o Wand o seguinte: que muitos atletas quando se machucavam e viam o sangue escorrendo caiam de rendimento, mas o Wand nessa situação ficava alucinado, partia pra dentro para dar o troco. Então, talvez o treinador da Pedrita quisesse dar esse incentivo para ela, sem saber da gravidade da lesão. O MMA é um esporte de alto rendimento, o que por si só já é nocivo à saúde. Além disso, visa inflingir danos no oponente. Ora, dentro desse ambiente, e no frenesi de um intervalo, com sangue quente e focado na superação, na vitória e no reconhecimento, é muito difícil parar.

Contudo, realmente jogar a toalha seria a atitude mais sensata, para preservar a integridade e saúde do atleta. Mas convenhamos, nosso esporte não é um esporte sensato! 

O Rafael dos Anjos e Cub Swanson se mostraram favoráveis a jogar a toalha. Rafael é, de fato, um cara muito coerente e sensato. Cub também parece. Só que a fria opinião de fora fica muito diferente na paixão do momento. Sera que algum dos dois quereria jogassem suas toalhas em algum momento muito desfavorável de suas batalhas? Se a toalha fosse jogada com mais frequência, só por exemplo, Minotauro nunca teria derrotado Bob Sapp.

Acho tambem que depende demais de circunstâncias e dos objetivos. Com alunos amadores e iniciantes já joguei toalha algumas vezes, mas com alunos competindo profissionalmente isso foi uma raridade.

É uma discussão dificílima e muito complicada.

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De fora é fácil, isso ai é uma questão que nós torcedores n temos mt o que opinar, n tenho opinião favorável nem contra.

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Postado (editado)

Excelente texto.

Mas preciso dizer, que a surra que o Shogun levou do JJ, foi a mais feia que já vi, inclusive maior que essa da Pedrita. Foi um espancamento sinistro, com mais contundência

Editado por CZJ

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O problema dessa luta da Pedrita x Valentina é colocar a top da categoria contra uma amadora. No primeiro round já tinha ficado nítido que a menina não tinha condição de lutar contra a Valentina, o Yamazaki devia ter parado no fim do primeiro round ou na primeira imobilização quando a mina ficou só apanhando. O Yamazaki é muito experiente para cometer esses erros de julgamento.Foi lamentável  a postura do corner da pedrita e do Yamazaki.

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acho que em caso de lutas disputando cinturão (tipo a surra que o rockhold deu no weidman quando ele estava no chão) é valido o juiz deixar continuar por mais tempo. supostamente os dois atletas estão num nível similar e é uma disputa pela cinta. mas nessa luta da pedrita ficou claro a diferença técnica das duas e se tratava da luta da estréia. por outro lado não acredito que tenha sido um erro apenas do yamasaki...se a atleta deu a entender que queria continuar quando ele avisava que ia parar a luta, se o corner não jogou a toalha, e se o ufc marcou essa luta....tá todo mundo envolvido na fita

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Essa luta do Shogun, foi uma das maiores surras valendo cinturão que eu já assistir. E pra ser sincero eu até chorei nesse dia, uma pelo fato de ser fã declarado dele e outra porque era uma disputa de cinturão. Mais já teve outros atropelos tipo Cro Cop x Wand II, Fedor x Gary Goodridge, Pezão x Fedor, Cain x Cigano II, Rafael dos Anjos X Nate Diaz e outras que me fugiram da mente nesse exato momento. 

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Muito bom o texto.

Muitos colegas foristas  aqui apreciam e fazem ponderações parecidas, embora não tão extensas.

Mas também, muitos foristas emitem uma opinião sem embasamento, apenas para expressar uma raiva ou atacar alguém gratuitamente.

O mundo da luta é fascinante. Mas também expõe o atleta da forma mais terrível. Por isso ser ponderado ao comentar é essencial.

Afinal, ninguém entra aqui no fórum só pra sacanear. A grande maioria de nós aprecia luta e respeita os lutadores.

Vejo colegas aqui que lutam, que treinam lutadores, que lecionam as mais variadas artes marciais, e nenhum deles desrespeita o atleta, pelo contrário, sempre consegue contextualizar seu comentário, de forma que o bom entendedor compreende onde ele quer chegar.

Valeu Henry.

 

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Esse negócio de Rocky, apanhar um monte e reverter eh coisa de filme.... como o Shogun reverteria???? Cansado, castigado, surrado e o Jones inteirão e pronto pra mais 10 minutos de surra violenta! O Lutador mesmo quer ir até o final mas o corner, por pior que seja, sabe q não tem como reverter e deve jogar a toalha e preservar o atleta!

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13 horas atrás, masterblaster disse:

(...)

Contudo, realmente jogar a toalha seria a atitude mais sensata, para preservar a integridade e saúde do atleta. Mas convenhamos, nosso esporte não é um esporte sensato! 

(...)

É uma discussão dificílima e muito complicada.

Muito boa a frase, Master! hahahahahaha  Compartilho do seu pensamento quanto ao tema. É complicado mesmo.

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Pra mim isso é pessoal e da equipe, algo acertado antes da luta...

Então, tem exemplos aí de caras tops do mesmo nível se enfrentando e rolando surras e monólogos ...

O problema não foi o casamento da luta, são DUAS profissionais já, se uma é muito melhor que a outra isso não tem nada a ver com a surra. Surras acontecem...

O problema foi que o árbitro errou e ponto.

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A reflexão é válida, sempre, mas é muito complicado chegar a um consenso, creio eu.

Cada caso é um caso. Ninguém conhece melhor o lutador do que ele mesmo. E há lutadores que nunca vão desistir de uma luta, e não vai ser o corner que vai contrariar-lo.

O único que vai parar uma luta com frequência é o árbitro. E esse, quando o faz, também é criticado, por parar cedo ou tarde.

Não existe consenso universal pra isso. Por isso está o árbitro ali, para proteger a integridade física do atleta. Se nem mesmo ele, cujo trabalho é exatamente parar a luta quando se deve, as vezes até antes de um lutador ser judiado demais, tem suas escolhas respeitadas sempre, imagina se o corner vai jogar a toalha...

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Muito bom o texto! A responsabilidade pela interrupção é do árbitro,  mas a desistência é de responsabilidade do próprio lutador, que é quem está ali apanhando e quem realmente sabe quando não aguenta mais segurar a situação adversa. 

De todo modo, na minha opinião o erro do treinador não foi nem o de não ter parado a luta, e sim as besteiras que ele falou no pós-luta. Ele advogou pela guerra até a morte, o que pode influenciar seus lutadores a nunca desistir, e possivelmente levá-los a sofrer danos graves que talvez pudessem ser evitados. 

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Valeu, @masterblaster suas considerações são bastante pertinentes. Obrigado também a  @AndersontheBeste a todos que movimentaram o tópico com suas impressões. É muito bom participar de  uma conversa em bom nível, sem crucificar ou linchar quem quer que seja, mas deixando claros seus pontos. Eu concordo com quem disse que no fim o Yamazaki talvez carregue m peso maior, pq ele seria como uma espécie de último guardião de uma fronteira complicada. Acho que faltou discernimento. Entretanto fazerem uma espécie de loby pra bani-lo de um evento ou mesmo do esporte eu acho um muito exagerado pelo que aqui e em outros tópicos já foi citado por muitos foristas; desde o casamento pouco comum da luta até a atitude do técnico da Pedrita e passando pela declaração pós luta da atleta. Enfim, se é pra fazer disso um tribunal e penalizar, acho que escolher somente o Yamazaki é ser um tanto parcial.

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Em 08/02/2018 at 3:17 PM, siso_ disse:

acho que em caso de lutas disputando cinturão (tipo a surra que o rockhold deu no weidman quando ele estava no chão) é valido o juiz deixar continuar por mais tempo. supostamente os dois atletas estão num nível similar e é uma disputa pela cinta. mas nessa luta da pedrita ficou claro a diferença técnica das duas e se tratava da luta da estréia. por outro lado não acredito que tenha sido um erro apenas do yamasaki...se a atleta deu a entender que queria continuar quando ele avisava que ia parar a luta, se o corner não jogou a toalha, e se o ufc marcou essa luta....tá todo mundo envolvido na fita

exatamente. todo mundo tem culpa nesse caso. quem casou essa luta é um criminoso praticamente.

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